A turistada, quando se junta no Louvre para tentar ver a Mona Lisa atrás de um punhado de japoneses e seus flashes implacáveis, deixa de reparar às suas costas, a descomunal obra prima que está logo ali. De Paolo Veronese, a tela representa as Bodas de Caná, aquele primeiro milagre de Cristo que dá alento a todos os bebuns do mundo (a água transforma-se em vinho, lembra?).
Pois bem. Essa tela, imensa, foi trazida – ou roubada – de Veneza pelas tropas de Napoleão. Antes, ela estava exposta no refeitório de um convento, projetado por Andrea Palladio, onde arquitetura e pintura se integravam perfeitamente, como uma obra única. Mas agora a tela foi parar em Paris, no Louvre, bem em frente à Mona Lisa.
Que fizeram então os italianos? Tiraram alguns milhares de fotografias da tela e montaram uma reprodução praticamente perfeita, no lugar em que a tela original ficava. Raios, e agora? Qual a tela original, ou melhor, qual a tela que vale uma visita? A realmente pintada pelas mãos de Veronese, lá no Louvre, ou a reprodução fotográfica, sem a aura da original, certamente, mas colocada no local que foi pensado para ela, com iluminação e espaço adequados?
Não faço a menor idéia. Mas sei que a obra de arte retirada do lugar original torna-se uma obra diferente, para melhor ou para pior. É, mal comparando, um prédio transplantado de uma cidade para outra (com outra paisagem, outro clima, outra luz), uma tatuagem tirada das costas do motoqueiro de um para a panturrilha do surfista, uma planta da caatinga para a, sei lá, tundra. Na igreja de Ognissanti, em Florença, o Santo Agostinho de Botticelli dialoga diretamente com o São Jerônimo de Ghirlandaio, à sua frente. Ali é o lugar em que as duas obras atingem seu sentido pleno, ou mesmo o único sentido que interessa. Pensem também, para provar o contrário, nos afrescos de Tiepolo naquele maravilhoso museu escondido de Paris, o Jacquemart-André: eles não foram feitos para ficar ali – foram transplantados de uma villa italiana -, mas é impressionante como se integraram bem ao ambiente e dá para cair no trompe-l’œil e acreditar que as figuras na sacada são reais.
Mas, no Louvre, a tela de Veronese fica sem lugar e falando sozinha: talvez fique como o próprio Cristo retratado bem no ponto de fuga da pintura, que olha diretamente para o espectador e não dá a mínima para o que acontece ao seu redor.
