Deambulatório

Quatro sonetos romanos

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

(in memoriam Bruno Tolentino)

 

                     I

 

Palazzo Spada, nunca vi jardim

mais esquisito! Todo aquele verde

parece morto, mas pela parede

abre-se o espaço sem início e fim:

 

o espaço irreal. Foi quando dei por mim

que aquele corredor era uma rede

onde está distante o que o olhar pede

do que ele recebe. Mesmo assim,

 

consciente de que tudo era engano,

consciente de que tudo era engodo,

aceitei. As coisas se mostram não

 

como são, e nosso olhar falho e humano

vê somente uma parte, e não o todo:

Borromini, o artista da ilusão.

 

 

***

 

                     II 

 

Com Zevi, escadaria acima. A russa

e seu chapéu felpudo, seu sotaque

diferente do meu, quase um ataque

àquilo que estudamos em pronúncia.

 

Pois não compreendia, nem que a vaca tussa,

aquele italiano bruto de araque:

Scusa, Bruno Zevi, sai chi

è?, entendi finalmente, mas custa

 

a me vir à memória exatamente

o que disse. Só sei que respondi:

“Nomearam Zevi a esta escadaria,

 

para que nosso olhar e nossa mente,

através dele e de Argan, bem aqui

ao lado, vissem como ele via!”

 

***

 

                 III

 

Roma, Bernini, ainda traz teu nome

em suas pedras! O tempo nos é cruel

e devora o medíocre: o papel

do poeta se desfaz, do pintor some

 

a tela, a casa cai, de tudo come

esse monstro. Mas quando sob o céu

romano, o peregrino tira o chapéu

e se vê sem dor, sem sede e sem fome,

 

envolto por colunas que, sem tê-lo,

o abraçam, também se vê redivivo.

E é teu Davi o marco maior dessa arte:

 

não o efebo sensual de Donatello,

nem como o Michelangelo, altivo,

teu Davi é vida e a vida, combate.

 

***

 

                      IV

 

Pela cúpula imensa protegido,

qualquer um, numa véspera fria de Ano

Novo, ao menos se sente, salvo engano,

seguro, ou pelo menos acolhido.

 

Michelangelo mesmo era um perdido,

mas o que tem sua arte de humano

encimando o esplendor do Vaticano,

me obriga a fazer-lhe este pedido:

 

neste ano que se inicia, escultor,

faz com que a beleza seja mostrada

não somente onde já está, na arte,

 

mas também desperta-a de seu torpor,

dessa imobilidade fria e forçada,

e espalha a beleza por toda parte.

Categorias: Poesia

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