(in memoriam Bruno Tolentino)
I
Palazzo Spada, nunca vi jardim
mais esquisito! Todo aquele verde
parece morto, mas pela parede
abre-se o espaço sem início e fim:
o espaço irreal. Foi quando dei por mim
que aquele corredor era uma rede
onde está distante o que o olhar pede
do que ele recebe. Mesmo assim,
consciente de que tudo era engano,
consciente de que tudo era engodo,
aceitei. As coisas se mostram não
como são, e nosso olhar falho e humano
vê somente uma parte, e não o todo:
Borromini, o artista da ilusão.
***
II
Com Zevi, escadaria acima. A russa
e seu chapéu felpudo, seu sotaque
diferente do meu, quase um ataque
àquilo que estudamos em pronúncia.
Pois não compreendia, nem que a vaca tussa,
aquele italiano bruto de araque:
Scusa, Bruno Zevi, sai chi
è?, entendi finalmente, mas custa
a me vir à memória exatamente
o que disse. Só sei que respondi:
“Nomearam Zevi a esta escadaria,
para que nosso olhar e nossa mente,
através dele e de Argan, bem aqui
ao lado, vissem como ele via!”
***
III
Roma, Bernini, ainda traz teu nome
em suas pedras! O tempo nos é cruel
e devora o medíocre: o papel
do poeta se desfaz, do pintor some
a tela, a casa cai, de tudo come
esse monstro. Mas quando sob o céu
romano, o peregrino tira o chapéu
e se vê sem dor, sem sede e sem fome,
envolto por colunas que, sem tê-lo,
o abraçam, também se vê redivivo.
E é teu Davi o marco maior dessa arte:
não o efebo sensual de Donatello,
nem como o Michelangelo, altivo,
teu Davi é vida e a vida, combate.
***
IV
Pela cúpula imensa protegido,
qualquer um, numa véspera fria de Ano
Novo, ao menos se sente, salvo engano,
seguro, ou pelo menos acolhido.
Michelangelo mesmo era um perdido,
mas o que tem sua arte de humano
encimando o esplendor do Vaticano,
me obriga a fazer-lhe este pedido:
neste ano que se inicia, escultor,
faz com que a beleza seja mostrada
não somente onde já está, na arte,
mas também desperta-a de seu torpor,
dessa imobilidade fria e forçada,
e espalha a beleza por toda parte.