Deambulatório

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Tradução: Delight in Disorder

Outubro 11, 2008 · 1 Comentário

Deleite na desordem

                                   Robert Herrick


Desordem no vestir é uma delícia
que inspira no conjunto malícia;
uma estola nos ombros lançada,
distraída e livre, como se largada;

um laço todo errado, que escraviza,
lá e cá, o vermelho-sangue da camisa;
tecido que se espalha em confusão
em torno de um certo botão aberto:

um belo ondear (merece uma olhada)
na saia pelo vento levantada;
ou um cadarço, frouxo, onde estão

o rude e o civil, o errado e o certo:
todos me encantam mais do que a arte
que é muito precisa em cada parte.

Categorias: Poesia · Traduções

It is time for the destruction of error

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

Márcio Lacerda é uma espécie de Mallu Magalhães de barbicha: o prestígio vem todo da criação da imagem e dos elogios de gente descolada, mas não propriamente do talento.

Lacerda já se deu mal com a eleição de BH indo para o segundo turno. Mallu ainda está no auge (se considerarmos que cantar com Marcelo Camelo e ser indicada a alguns VMBs é auge de alguma coisa).

Mas escutem: Lacerda será derrotado, Mallu cairá.

Categorias: Música · Política

Quatro sonetos romanos

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

(in memoriam Bruno Tolentino)

 

                     I

 

Palazzo Spada, nunca vi jardim

mais esquisito! Todo aquele verde

parece morto, mas pela parede

abre-se o espaço sem início e fim:

 

o espaço irreal. Foi quando dei por mim

que aquele corredor era uma rede

onde está distante o que o olhar pede

do que ele recebe. Mesmo assim,

 

consciente de que tudo era engano,

consciente de que tudo era engodo,

aceitei. As coisas se mostram não

 

como são, e nosso olhar falho e humano

vê somente uma parte, e não o todo:

Borromini, o artista da ilusão.

 

 

***

 

                     II 

 

Com Zevi, escadaria acima. A russa

e seu chapéu felpudo, seu sotaque

diferente do meu, quase um ataque

àquilo que estudamos em pronúncia.

 

Pois não compreendia, nem que a vaca tussa,

aquele italiano bruto de araque:

Scusa, Bruno Zevi, sai chi

è?, entendi finalmente, mas custa

 

a me vir à memória exatamente

o que disse. Só sei que respondi:

“Nomearam Zevi a esta escadaria,

 

para que nosso olhar e nossa mente,

através dele e de Argan, bem aqui

ao lado, vissem como ele via!”

 

***

 

                 III

 

Roma, Bernini, ainda traz teu nome

em suas pedras! O tempo nos é cruel

e devora o medíocre: o papel

do poeta se desfaz, do pintor some

 

a tela, a casa cai, de tudo come

esse monstro. Mas quando sob o céu

romano, o peregrino tira o chapéu

e se vê sem dor, sem sede e sem fome,

 

envolto por colunas que, sem tê-lo,

o abraçam, também se vê redivivo.

E é teu Davi o marco maior dessa arte:

 

não o efebo sensual de Donatello,

nem como o Michelangelo, altivo,

teu Davi é vida e a vida, combate.

 

***

 

                      IV

 

Pela cúpula imensa protegido,

qualquer um, numa véspera fria de Ano

Novo, ao menos se sente, salvo engano,

seguro, ou pelo menos acolhido.

 

Michelangelo mesmo era um perdido,

mas o que tem sua arte de humano

encimando o esplendor do Vaticano,

me obriga a fazer-lhe este pedido:

 

neste ano que se inicia, escultor,

faz com que a beleza seja mostrada

não somente onde já está, na arte,

 

mas também desperta-a de seu torpor,

dessa imobilidade fria e forçada,

e espalha a beleza por toda parte.

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