Deambulatório

Entradas desde Junho 2008

O charme do container

Junho 18, 2008 · 1 Comentário

Um container com o logotipo da Illy. Maravilha.

Caiu de um navio, com certeza.

No apertar de um botão…

Atentem para a privada à esquerda.

Ta-dah! Uma cafeteria modernosa e transportável por navio em instantes! Algo me diz que esse é o futuro da arquitetura.

(via Adam Kalkin, que prova que containers são mais úteis do que parecem)

Categorias: Arquitetura · Arte · Gastronomia

Comida mineira à francesa

Junho 16, 2008 · 2 Comentários

Texto meu, na Brazuca deste mês. Leia já!

Categorias: Gastronomia

O lugar da arte

Junho 16, 2008 · 1 Comentário

A turistada, quando se junta no Louvre para tentar ver a Mona Lisa atrás de um punhado de japoneses e seus flashes implacáveis, deixa de reparar às suas costas, a descomunal obra prima que está logo ali. De Paolo Veronese, a tela representa as Bodas de Caná, aquele primeiro milagre de Cristo que dá alento a todos os bebuns do mundo (a água transforma-se em vinho, lembra?).

Pois bem. Essa tela, imensa, foi trazida – ou roubada – de Veneza pelas tropas de Napoleão. Antes, ela estava exposta no refeitório de um convento, projetado por Andrea Palladio, onde arquitetura e pintura se integravam perfeitamente, como uma obra única. Mas agora a tela foi parar em Paris, no Louvre, bem em frente à Mona Lisa.

Que fizeram então os italianos? Tiraram alguns milhares de fotografias da tela e montaram uma reprodução praticamente perfeita, no lugar em que a tela original ficava. Raios, e agora? Qual a tela original, ou melhor, qual a tela que vale uma visita? A realmente pintada pelas mãos de Veronese, lá no Louvre, ou a reprodução fotográfica, sem a aura da original, certamente, mas colocada no local que foi pensado para ela, com iluminação e espaço adequados?

Não faço a menor idéia. Mas sei que a obra de arte retirada do lugar original torna-se uma obra diferente, para melhor ou para pior. É, mal comparando, um prédio transplantado de uma cidade para outra (com outra paisagem, outro clima, outra luz), uma tatuagem tirada das costas do motoqueiro de um para a panturrilha do surfista, uma planta da caatinga para a, sei lá, tundra. Na igreja de Ognissanti, em Florença, o Santo Agostinho de Botticelli dialoga diretamente com o São Jerônimo de Ghirlandaio, à sua frente. Ali é o lugar em que as duas obras atingem seu sentido pleno, ou mesmo o único sentido que interessa. Pensem também, para provar o contrário, nos afrescos de Tiepolo naquele maravilhoso museu escondido de Paris, o Jacquemart-André: eles não foram feitos para ficar ali – foram transplantados de uma villa italiana -, mas é impressionante como se integraram bem ao ambiente e dá para cair no trompe-l’œil e acreditar que as figuras na sacada são reais.

Mas, no Louvre, a tela de Veronese fica sem lugar e falando sozinha: talvez fique como o próprio Cristo retratado bem no ponto de fuga da pintura, que olha diretamente para o espectador e não dá a mínima para o que acontece ao seu redor.

 

 

Categorias: Arte

Não estou na pegada. Mas como gostaria de estar!

Junho 16, 2008 · 1 Comentário

PP Rubens - pioneiro dos bundas-moles

 

A arte hoje em dia é para quem está na pegada“, disse o estudante (sic) paulistano que pichou, junto com seus amiguinhos, todo o prédio do Centro Universitário de Belas Artes como trabalho de conclusão de curso. E continua: “para os bunda-moles ela morreu faz é tempo“. É essa a oposição que vive a arte contemporânea (lembrem que o poço sempre é mais fundo do que parece): bundas-moles, ou bunda-moles, como disse o cara, versus quem está na pegada. Há algum tempo, outro grupo de estudantes (sic) depredou uma vaquinha da Cow Parade em Belo Horizonte. Esses estavam na pegada. Brian Eno fez xixi no urinol do Duchamp. Acho que estava na pegada, o Duchamp também. Mas tem gente que pensa que a arquitetura deve ser preservada: bundas-moles. Ou que a pintura, com tela, tintas, pincel, essas coisas, ainda é arte: bundas-moles.

Mas está explicado por que a arte contemporânea só atrai uma meia dúzia de gatos pingados: ninguém está na pegada. Somos todos uns bunda-moles.

Categorias: Arte

Twin Peaks

Junho 5, 2008 · Deixe um comentário

            É clichê dizer que Twin Peaks mudou a história da televisão. Ora bolas, nunca havia sido feito um seriado ao mesmo tempo tão sofisticado, tão bem filmado e dirigido, e ainda com uma temática tão macabra. Até então, só se via na TV alguns dramalhões daqueles bem bregas, algumas comédias boas e um punhado de comédias ruins (dizem que Miami Vice era legal, com Phil Collins, Frank Zappa e o Michael Mann na produção, mas não ponho muita fé). Agora, com Twin Peaks, a coisa se sofisticou, a TV ganhou status de arte e ninguém mais dormiu em paz.

            Quem estiver acostumado (digo, familiarizado, que se acostumar é impossível) com o estilo do cara, vai ver que em Twin Peaks estão presentes todos os elementos que o identificam: a estranheza, os limites tênues ou inexistentes entre sonho e realidade, os personagens complexos que mudam sua natureza (e a cor dos cabelos) ao longo da trama.

            A história poderia muito bem ser a de uma novela das oito. A diferença é que, por trás de tudo, estava o gênio de David Lynch: é uma novelona mesmo, mas parece que foi filmada no inferno. Tudo gira, aparentemente, em torno do assassinato de Laura Palmer, beauty queen adolescente, garota popular no colégio, essas coisas. Um agente do FBI, Dale Cooper, o maior personagem do sempre perturbado Kyle McLachlan, é mandado para a cidadezinha e, claro, percebe que as coisas não são bem o que parecem (é David Lynch, pô).

            É difícil explicar o que ele encontra por lá: toda a cidade parece ter um contato com o oculto, com o sobrenatural, ao mesmo tempo em que gostam todos de viver vidinhas pacatas e normais. Todos também parecem viver exclusivamente de enganar uns aos outros, de trapacear, trair, torturar. Mas a fachada do lugarejo, claro, é sempre a de uma simples comunidade na fronteira do Canadá, chocada por um crime bárbaro. O agente chega lá disposto a deixar que toda a esquisitice presente sob a superfície venha à tona, para conseguir resolver seu mistério, e é aí que começa a encrenca. Não dá para adiantar mais sem estragar. Assistam, assistam.

           

ps: dos seriados recentes, o que mais bebeu na fonte de Twin Peaks foi Lost. Em alguns momentos, especialmente na quantidade de mistérios que cercam a trama, a influência é gritante. Pequenos detalhes esquisitos também deixam um cheirinho de imitação: em Lost, o tapa-olho de Bakunin (eles gostam de aproveitar nomes da teoria política, sei lá o porquê) é herança direta do igualmente misterioso tapa-olho de Nadine. O cavalo preto que aparece no meio da ilha perdida já havia aparecido, branco, no quarto do agente Cooper. E até o urso polar já tinha dado as caras, como lhama, numa cena memorável de Twin Peaks. E Lost bem que tenta imitar a construção dos personagens, mas o resultado não é tão bom. Como disse o Mercuccio, até o anão de Twin Peaks é maior que Jack Shepard.

Categorias: Televisão