É clichê dizer que Twin Peaks mudou a história da televisão. Ora bolas, nunca havia sido feito um seriado ao mesmo tempo tão sofisticado, tão bem filmado e dirigido, e ainda com uma temática tão macabra. Até então, só se via na TV alguns dramalhões daqueles bem bregas, algumas comédias boas e um punhado de comédias ruins (dizem que Miami Vice era legal, com Phil Collins, Frank Zappa e o Michael Mann na produção, mas não ponho muita fé). Agora, com Twin Peaks, a coisa se sofisticou, a TV ganhou status de arte e ninguém mais dormiu em paz.
Quem estiver acostumado (digo, familiarizado, que se acostumar é impossível) com o estilo do cara, vai ver que em Twin Peaks estão presentes todos os elementos que o identificam: a estranheza, os limites tênues ou inexistentes entre sonho e realidade, os personagens complexos que mudam sua natureza (e a cor dos cabelos) ao longo da trama.
A história poderia muito bem ser a de uma novela das oito. A diferença é que, por trás de tudo, estava o gênio de David Lynch: é uma novelona mesmo, mas parece que foi filmada no inferno. Tudo gira, aparentemente, em torno do assassinato de Laura Palmer, beauty queen adolescente, garota popular no colégio, essas coisas. Um agente do FBI, Dale Cooper, o maior personagem do sempre perturbado Kyle McLachlan, é mandado para a cidadezinha e, claro, percebe que as coisas não são bem o que parecem (é David Lynch, pô).
É difícil explicar o que ele encontra por lá: toda a cidade parece ter um contato com o oculto, com o sobrenatural, ao mesmo tempo em que gostam todos de viver vidinhas pacatas e normais. Todos também parecem viver exclusivamente de enganar uns aos outros, de trapacear, trair, torturar. Mas a fachada do lugarejo, claro, é sempre a de uma simples comunidade na fronteira do Canadá, chocada por um crime bárbaro. O agente chega lá disposto a deixar que toda a esquisitice presente sob a superfície venha à tona, para conseguir resolver seu mistério, e é aí que começa a encrenca. Não dá para adiantar mais sem estragar. Assistam, assistam.
ps: dos seriados recentes, o que mais bebeu na fonte de Twin Peaks foi Lost. Em alguns momentos, especialmente na quantidade de mistérios que cercam a trama, a influência é gritante. Pequenos detalhes esquisitos também deixam um cheirinho de imitação: em Lost, o tapa-olho de Bakunin (eles gostam de aproveitar nomes da teoria política, sei lá o porquê) é herança direta do igualmente misterioso tapa-olho de Nadine. O cavalo preto que aparece no meio da ilha perdida já havia aparecido, branco, no quarto do agente Cooper. E até o urso polar já tinha dado as caras, como lhama, numa cena memorável de Twin Peaks. E Lost bem que tenta imitar a construção dos personagens, mas o resultado não é tão bom. Como disse o Mercuccio, até o anão de Twin Peaks é maior que Jack Shepard.