Se tem uma coisa em que o século XIX foi melhor que o nosso (o XX, que o XXI ainda é terra de ninguém), foi na postura dos ricos. Mentira, eles foram melhores em muitas outras coisas. E acho que essa postura já existia em outros séculos também. Então é melhor mudar: se tem uma coisa em que o nosso século (XX, já expliquei) foi ruim, foi na postura dos ricos.
O rico do passado só queria comprar uma coisa: o direito à satisfação. Satisfação positiva e satisfação negativa: positiva é ficar quieto, todo satisfeito no seu canto; negativa é o direito de não dar satisfação para ninguém. Hoje em dia, o rico quer outra coisa: ficar mais rico, trabalhar e fingir que “é gente como a gente”.
Vejam aqueles nerds que inventaram o Youtube: os caras ficam bilionários em menos tempo do que o Tio Patinhas leva num banho de dinheiro na Caixa Forte e… continuam trabalhando no Youtube. Dão entrevistas. Palestras. Fazem previsões sobre o futuro da internet, da televisão, das eleições americanas, o escambau.
Agora, em tempos antigos, o rico era muito mais autêntico: ele queria uma villa na Toscana, colecionar inutilidades, enganar mulheres, conviver com gente falsa, bem educada, culta e well-bred e subir os morros carregado enquanto o resto da turma ia a pé (essa é do Auden).
Talvez o problema esteja nessa paixão que a turma de hoje tem pelo trabalho. De um meio de ganhar dinheiro, a labuta se transformou num estilo de vida, em algo tão importante quanto era o chá da tarde e os bailes de outrora (ia escrever de antanho, mas desisti).
Pois bem. É por isso – e não o contrário – que a turma endinheirada, no fundo, detesta a riqueza: o sujeito fica rico e continua querendo levar a vidinha de sempre, acordando cedo, trabalhando até tarde e passando férias em resort na Bahia ou na Disney com a molecada. A riqueza não é mais um meio de se comprar a liberdade e a satisfação de que falei lá em cima, mas só um meio de se encaixar na classe (arrepiei para escrever) dos ricos, todos tão sem graça e iguais. Daí é que vem o desprezo por figuras como João Dória Jr. Daí é que as pessoas se sentem incomodadas por irresponsáveis jogadores de futebol, músicos famosos e playboys desocupados. Estes estão mais é querendo não dar satisfação e sabem gastar, ainda que com péssimo gosto, o rico dinheirinho que acumularam. Têm todos, no fundo, um quê da mentalidade de antanho (não resisti), que não dá a mínima para o que se espera deles. Pela vulgaridade, têm meu desprezo. Mas pela atitude, têm minha sincera admiração.