Quando lembramos um sonho,
suave e sutil, ou bisonho
e bizarro, não podemos
saber se é então que temos,
diante de fato tão raro,
que levá-lo a sério. É claro
que não lembramos à toa,
mas uma lembrança boa
(ou mesmo ruim) não garante
que tomaremos, perante
o dia seguinte, a atitude
certa.
Como da finitude
de um sonho surgirá
algo importante? Será
que quem sonha estar no céu
voando (este sonho que eu
nunca sonhei; porém minto
e digo que já, pois sinto
que todo mundo que sonha
voar é normal), com a fronha
e os lençóis desarranjados,
entende estarem errados
seus hábitos, que ser livre
é sua meta, que ele vive
preso? Interpretações
rasas levam a emoções
vulgares, e se orientar
por elas é professar
a pieguice (os analistas,
piegas sempre, moralistas
nunca, vivem de fazer
isso há décadas, sem saber
o mal que fazem).
Exemplo,
meu sonho: no mesmo templo
em ruínas, sempre sozinho,
vou pelo mesmo caminho,
e nunca, nunca encontro
o altar. Alguém grita: “Pronto!”,
corta a cena, e estou no chão
nu (vejam que situação!),
e sou então crucificado.
Por quem? Por quê? Que de errado
aprontei? Nada, provavelmente,
mas prato cheio para encher a mente
perversa de um analista
por alguns dias. Mais realista
é outro que sonho em alguns dias
(ou noites): despejo frias
lágrimas, sem motivo,
(ou nem mesmo lembro se tive
algum motivo para choro),
eu que, tão cínico, adoro
lembrar que sou frio e durão,
que nunca choro, que não
me deixo abalar por nada,
sonho que choro, que cada
soluço mais me sufoca,
e que o choro, de razão oca,
nunca, nunca vai acabar.
Estranho, deixa pra lá,
é melhor mesmo.
Afinal,
após um sonho anormal,
não é assim que sempre agimos?
Às vezes até não sonhamos
que beijamos ou agarramos
(ou coisa pior!), em ato falho,
um colega de trabalho,
um amigo, alguém improvável,
alguém até mesmo impensável?
Não encontramos a pessoa
de manhã e pensamos “foi boa
a noite!”, mas não temos
coragem (sempre trememos)
de perguntar “Foi também
boa para você, meu bem?
Sonhei ontem com você, digo,
com nós dois. Sonhou comigo
também?”
Nunca perguntamos,
ainda bem: pois se deixamos
que os sonhos entrem assim
na rotina, qual o fim?
Viver o sonho, sonhar
A vida? Não dá. Se tenho que optar,
escolho o que é real, a vida,
mesmo que (às vezes) sofrida.

