Deambulatório

Sonhos

Fevereiro 9, 2009 · Deixe um comentário

Quando lembramos um sonho,

suave e sutil, ou bisonho

e bizarro, não podemos

saber se é então que temos,

diante de fato tão raro,

que levá-lo a sério. É claro

que não lembramos à toa,

mas uma lembrança boa

(ou mesmo ruim) não garante

que tomaremos, perante

o dia seguinte, a atitude

certa.                                     

          

           Como da finitude

de um sonho surgirá

algo importante? Será

que quem sonha estar no céu

voando (este sonho que eu

nunca sonhei; porém minto

e digo que já, pois sinto

que todo mundo que sonha

voar é normal), com a fronha

e os lençóis desarranjados,

entende estarem errados

seus hábitos, que ser livre

é sua meta, que ele vive

preso? Interpretações

rasas levam a emoções

vulgares, e se orientar

por elas é professar

a pieguice (os analistas,

piegas sempre, moralistas

nunca, vivem de fazer

isso há décadas, sem saber

o mal que fazem).

 

                                   Exemplo,

meu sonho: no mesmo templo

em ruínas, sempre sozinho,

vou pelo mesmo caminho,

e nunca, nunca encontro

o altar. Alguém grita: “Pronto!”,

corta a cena, e estou no chão

nu (vejam que situação!),

e sou então crucificado.

Por quem? Por quê? Que de errado

aprontei? Nada, provavelmente,

mas prato cheio para encher a mente

perversa de um analista

por alguns dias. Mais realista

é outro que sonho em alguns dias

(ou noites): despejo frias

lágrimas, sem motivo,

(ou nem mesmo lembro se tive

algum motivo para choro),

eu que, tão cínico, adoro

lembrar que sou frio e durão,

que nunca choro, que não

me deixo abalar por nada,

sonho que choro, que cada

soluço mais me sufoca,

e que o choro, de razão oca,

nunca, nunca vai acabar.

Estranho, deixa pra lá,

é melhor mesmo.

 

                                   Afinal,

após um sonho anormal,

não é assim que sempre agimos?

Às vezes até não sonhamos

que beijamos ou agarramos

(ou coisa pior!), em ato falho,

um colega de trabalho,

um amigo, alguém improvável,

alguém até mesmo impensável?

Não encontramos a pessoa

de manhã e pensamos “foi boa

a noite!”, mas não temos

coragem (sempre trememos)

de perguntar “Foi também

boa para você, meu bem?

Sonhei ontem com você, digo,

com nós dois. Sonhou comigo

também?”

 

                       Nunca perguntamos,

ainda bem: pois se deixamos

que os sonhos entrem assim

na rotina, qual o fim?

Viver o sonho, sonhar

A vida? Não dá. Se tenho que optar,

escolho o que é real, a vida,

mesmo que (às vezes) sofrida.

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Tradução: Delight in Disorder

Outubro 11, 2008 · 1 Comentário

Deleite na desordem

                                   Robert Herrick


Desordem no vestir é uma delícia
que inspira no conjunto malícia;
uma estola nos ombros lançada,
distraída e livre, como se largada;

um laço todo errado, que escraviza,
lá e cá, o vermelho-sangue da camisa;
tecido que se espalha em confusão
em torno de um certo botão aberto:

um belo ondear (merece uma olhada)
na saia pelo vento levantada;
ou um cadarço, frouxo, onde estão

o rude e o civil, o errado e o certo:
todos me encantam mais do que a arte
que é muito precisa em cada parte.

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It is time for the destruction of error

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

Márcio Lacerda é uma espécie de Mallu Magalhães de barbicha: o prestígio vem todo da criação da imagem e dos elogios de gente descolada, mas não propriamente do talento.

Lacerda já se deu mal com a eleição de BH indo para o segundo turno. Mallu ainda está no auge (se considerarmos que cantar com Marcelo Camelo e ser indicada a alguns VMBs é auge de alguma coisa).

Mas escutem: Lacerda será derrotado, Mallu cairá.

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Quatro sonetos romanos

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

(in memoriam Bruno Tolentino)

 

                     I

 

Palazzo Spada, nunca vi jardim

mais esquisito! Todo aquele verde

parece morto, mas pela parede

abre-se o espaço sem início e fim:

 

o espaço irreal. Foi quando dei por mim

que aquele corredor era uma rede

onde está distante o que o olhar pede

do que ele recebe. Mesmo assim,

 

consciente de que tudo era engano,

consciente de que tudo era engodo,

aceitei. As coisas se mostram não

 

como são, e nosso olhar falho e humano

vê somente uma parte, e não o todo:

Borromini, o artista da ilusão.

 

 

***

 

                     II 

 

Com Zevi, escadaria acima. A russa

e seu chapéu felpudo, seu sotaque

diferente do meu, quase um ataque

àquilo que estudamos em pronúncia.

 

Pois não compreendia, nem que a vaca tussa,

aquele italiano bruto de araque:

Scusa, Bruno Zevi, sai chi

è?, entendi finalmente, mas custa

 

a me vir à memória exatamente

o que disse. Só sei que respondi:

“Nomearam Zevi a esta escadaria,

 

para que nosso olhar e nossa mente,

através dele e de Argan, bem aqui

ao lado, vissem como ele via!”

 

***

 

                 III

 

Roma, Bernini, ainda traz teu nome

em suas pedras! O tempo nos é cruel

e devora o medíocre: o papel

do poeta se desfaz, do pintor some

 

a tela, a casa cai, de tudo come

esse monstro. Mas quando sob o céu

romano, o peregrino tira o chapéu

e se vê sem dor, sem sede e sem fome,

 

envolto por colunas que, sem tê-lo,

o abraçam, também se vê redivivo.

E é teu Davi o marco maior dessa arte:

 

não o efebo sensual de Donatello,

nem como o Michelangelo, altivo,

teu Davi é vida e a vida, combate.

 

***

 

                      IV

 

Pela cúpula imensa protegido,

qualquer um, numa véspera fria de Ano

Novo, ao menos se sente, salvo engano,

seguro, ou pelo menos acolhido.

 

Michelangelo mesmo era um perdido,

mas o que tem sua arte de humano

encimando o esplendor do Vaticano,

me obriga a fazer-lhe este pedido:

 

neste ano que se inicia, escultor,

faz com que a beleza seja mostrada

não somente onde já está, na arte,

 

mas também desperta-a de seu torpor,

dessa imobilidade fria e forçada,

e espalha a beleza por toda parte.

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And Wystan, submissive, felt unwanted and went out.

Setembro 29, 2008 · Deixe um comentário

Faz hoje trinta e cinco anos que morreu W.H. Auden, sozinho e amargurado, em um hotel em Viena. A notícia se espalhou como uma bomba entre a few thousand. Chester Kallman encontrou seu corpo pela manhã e nunca mais se recuperou do choque. Hannah Arendt lamentou não ter entendido nem aceitado o pedido de casamento e de socorro que ele lhe fizera três anos antes. Christopher Isherwood, seu mais antigo amigo, foi acuado por um microfone da BBC enquanto se acabava em lágrimas. Bruno Tolentino recebeu a notícia de sua morte - ”aquele horror sem cabimento”, escreveria - em um aeroporto quase deserto.

Pois foi bem hoje que terminei de ler a maravilhosa biografia “Auden”, escrita por Richard Davenport-Hines. Coincidência das brabas ou não, é um daqueles sinais que o próprio Auden não desprezaria.

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Bonde do soneto

Setembro 29, 2008 · Deixe um comentário

Vai, calça da Gang, vai até o chão:

cá neste baile suado, lotado,

admiro-te a dançar bem ao meu lado,

à batida violenta do pancadão.

 

Vem, tchutchuca, olha aqui o teu tigrão:

cheirarei teu cabelo oxigenado

beijarei teu rosto purpurinado,

a fim de sentires toda a pressão.

 

Se danças, também eu hei de dançar:

mas eis que vem a sujeira chegando

e antes que a polícia nos arranque

 

o couro, melhor é logo escapar…

Já que não posso mais te ver dançando,

em forma de soneto compus um funk.

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i am a little church(no great cathedral) – e.e. cummings

Setembro 25, 2008 · Deixe um comentário

i am a little church(no great cathedral)

far from the splendor and squalor of hurrying cities

_i do not worry if briefer days grow briefest,

i am not sorry when sun and rain make april

 

my life is the life of the reaper and the sower;

any prayers are prayers of earth’s own clumsily striving

(finding and losing and laughing and crying) children

whose any sadness or joy is my grief or my gladness

 

around me surges a miracle of unceasing

birth and glory and death and resurrection:

over my sleeping self float flaming symbols

of hope,and I wake to a perfect patience of mountains

 

i am a little church(far from the frantic

world with its rapture and anguish)at peace with nature

_i do not worry if longer nights grow longest;

i am not sorry when silence becomes singing

 

winter by spring,i lift my diminutive spire to

merciful Him Whose only now is forever:

standing erect in the deathless truth of His presence

(welcoming humbly His light and proudly His darkness)

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The Naked Gyre

Agosto 9, 2008 · Deixe um comentário

A play in one act.

The characters:

WILLIAM Butler Yeats, a poet
MAUD Gonne, an actress and revolutionary

Act I.

Scene 1. 1920, foyer of the Abbey Theatre. William is reading the draft of a new poem to Maud.

WILLIAM
 Surely some revelation is at hand;
 Surely the Second Coming is at hand…

MAUD
 Nice. But don’t call me Shirley.

The curtain falls.

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O charme do container

Junho 18, 2008 · 1 Comentário

Um container com o logotipo da Illy. Maravilha.

Caiu de um navio, com certeza.

No apertar de um botão…

Atentem para a privada à esquerda.

Ta-dah! Uma cafeteria modernosa e transportável por navio em instantes! Algo me diz que esse é o futuro da arquitetura.

(via Adam Kalkin, que prova que containers são mais úteis do que parecem)

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Comida mineira à francesa

Junho 16, 2008 · 2 Comentários

Texto meu, na Brazuca deste mês. Leia já!

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